EditorialRONALD AUGUSTO e
RONALDO MACHADO,
editores
O transcurso dos três primeiros anos da Editora Éblis confirmou
a impertinência do nosso projeto editorial, delineado no final
de 2006 e concretizado ao longo de 2007, 2008 e neste início de
2009: o gesto de afirmarmos a publicação de poesia como atinente
ao seu próprio caráter e função: gesto de contestação e de
contra-argumentação ao sistema literário. A editora Éblis é o
desdobramento de um gesto estético e crítico implicado no quadro
mais amplo das relações literárias. Como um poema: um golpe de
linguagem.
Reafirmamos que os poetas e textos que pretendemos publicar são
realidades e movimentos efetivos com os quais nos identificamos.
Os queremos como nossos interlocutores. Com eles a editora
estará bem acompanhada. Os valores da editora são os mesmos da
tradição, isto é, inventar a tradição, ou as tradições, e,
quanto às práticas: não desprezar as traições, os desvios, etc.,
sempre que a maturidade amortecida, ou a voz melíflua da
consagração estiverem farejando nosso afazer e nossa afasia.
Contra o pano de fundo do cenário literário contemporâneo, onde
o provincianismo é muito ativo e o cult muito cansativo,
marcamos e afirmamos uma posição centrada na lucidez de que a
criação poética é sempre uma confrontação com a linguagem, é um
fazer frente à exaustão da linguagem, e que seu resultado, o
poema, o livro de poemas, é sempre inconcluso. São esses os
valores da Éblis. Nossas práticas, por sua vez, se mostram na
opção que a editora faz de publicar e pôr em circulação poetas
que tenham presente, de uma forma ou de outra, a consciência da
“dificuldade” da poesia, o que envolve a experimentação e a
negação de clichês retóricos.
Desse modo, a experiência da Éblis se constitui simultaneamente
como investimento ético e como criação estética. Neste primeiro
ano, experimentamos exatamente a compreensão desta inequívoca
co-relação entre ética e estética, na dimensão da fruição, do
prazer, sem impostação. Assim, Éblis é irônica ao “fetichismo
cult alternativo” e à poesia como “sorriso da sociedade”.
Não abrimos mão de problematizar a força de qualquer
empreitada-arte, e isto parece interessante porque por meio
dessa suspeição irônica nos tornamos mais aptos para compreender
a arte e a poesia numa dimensão menos grandiloqüente ou menos
esperançosa em relação ao seu poder de fogo. Talvez, mesmo a
revelia de seus pais fundadores, a editora Éblis venha a ter
alguma importância frente à multiplicação libidinosa dessas
visibilidades sem fundo ou das novas tecnologias e sua correlata
insolvência. Mas isso foge ao nosso controle, pois o futuro
pertence à Éblis. Nosso projeto gráfico já afirma uma espécie de
vontade não-perdulária no que toca ao aproveitamento dos signos.
Nossas capas revelam um gesto severo de calígrafo: uma estocada
de nanquim sobre a folha branca. A recusa sob a escolha.
Editorial 2006

Bar Naval, 20 de novembro de 2006
Sob o signo de Éblis, vem à luz uma proposta editorial simples:
a edição de livros de poesia, primeiramente os nossos. Sobre o
futuro, e desde o ponto de vista da editora, digamos que
pertence a Éblis. Invertemos a força disjuntiva de Éblis e a
dispomos na direção contrária, forçando-o a jungir nossos
projetos poéticos.
Já no prelo estão os dois primeiros livros da editora: de
Ronald, No assoalho duro; de Ronaldo, Solecidades. Ambos sairão
com uma edição de trezentos exemplares.
Específicos em suas singularidades, os dois livros se completam
(e também se contrastam) no trabalho editorial a que nos
propusemos, o qual pressupõe a poesia e o livro como objetos
estéticos nascidos da posse da alteridade de nós mesmos, pela
consciência e pela análise, pelo exercício e pela
experimentação, mas sem desprezar a colaboração do acaso.
Poesia-coisa e livro-objeto como resultado de um senso
ludodáctilo, de uma inteligência lúcida, vertiginosa, às voltas
com seus limites, recusando-se, sempre, à dissipação e ao
descanso fácil.
Nos interessamos tanto pelo trabalho poético e como pelo seu
resultado concreto: o livro de poesia. A poética do suporte.
Empresamos uma editora cujo foco é por em circulação a poesia
que não se contente com a corriqueira satisfação da moeda
literária vigente, que cai sempre, inevitavelmente, ora com a
cara cult, ora com a coroa provinciana. Não somos Quixotes, mas
investimos na Editora Éblis nossos próprios recursos estéticos e
nossos próprios bens éticos.
Não obstante, a Editora Éblis se situa, isto é, para o bem ou
para o mal, representa um gesto político contra o pano de fundo
de um sistema literário, entendido aqui como a representação
especular, mas com suas particularidades, dos imperativos
sócio-econômicos abrigados sob o arco ideológico do livre
mercado que exige competência a quem quer se estabelecer.
Mas, como adequar o fracasso e o impreciso constitutivos da
prática poética, que é, antes, improdutiva, impertinente e
não-utilitária, a essa "eficiência de rebanho" requerida pelo
modo capitalista de produção? A condição mesma do poema como ser
de linguagem, inadequado à comunicação do que quer que seja,
exceto a de sua própria realidade estética, já o consagra como
coisa invendável ou inviável, economicamente falando.
Caberia, então, perguntar sobre a função de uma editora quase
imaterial, cujos livros terão tiragens de não mais de trezentos
exemplares, e os volumes magros com cerca de vintes e poucos
poemas? Ou ainda, e quanto às questões relativas à difusão da
leitura ou sobre a literatura como coisa para poucos, etc.?
Caberia, mas quem se habilita a responder sem repetir clichês
decadentistas ou multiculturais?
RONALD AUGUSTO & RONALDO MACHADO, editores