Ronald Augusto e Ronaldo Machado - Maio de 2007 Editorial

RONALD AUGUSTO e RONALDO MACHADO,
editores
 

O transcurso dos três primeiros anos da Editora Éblis confirmou a impertinência do nosso projeto editorial, delineado no final de 2006 e concretizado ao longo de 2007, 2008 e neste início de 2009: o gesto de afirmarmos a publicação de poesia como atinente ao seu próprio caráter e função: gesto de contestação e de contra-argumentação ao sistema literário. A editora Éblis é o desdobramento de um gesto estético e crítico implicado no quadro mais amplo das relações literárias. Como um poema: um golpe de linguagem.

Reafirmamos que os poetas e textos que pretendemos publicar são realidades e movimentos efetivos com os quais nos identificamos. Os queremos como nossos interlocutores. Com eles a editora estará bem acompanhada. Os valores da editora são os mesmos da tradição, isto é, inventar a tradição, ou as tradições, e, quanto às práticas: não desprezar as traições, os desvios, etc., sempre que a maturidade amortecida, ou a voz melíflua da consagração estiverem farejando nosso afazer e nossa afasia.

Contra o pano de fundo do cenário literário contemporâneo, onde o provincianismo é muito ativo e o cult muito cansativo, marcamos e afirmamos uma posição centrada na lucidez de que a criação poética é sempre uma confrontação com a linguagem, é um fazer frente à exaustão da linguagem, e que seu resultado, o poema, o livro de poemas, é sempre inconcluso. São esses os valores da Éblis. Nossas práticas, por sua vez, se mostram na opção que a editora faz de publicar e pôr em circulação poetas que tenham presente, de uma forma ou de outra, a consciência da “dificuldade” da poesia, o que envolve a experimentação e a negação de clichês retóricos.

Desse modo, a experiência da Éblis se constitui simultaneamente como investimento ético e como criação estética. Neste primeiro ano, experimentamos exatamente a compreensão desta inequívoca co-relação entre ética e estética, na dimensão da fruição, do prazer, sem impostação. Assim, Éblis é irônica ao “fetichismo cult alternativo” e à poesia como “sorriso da sociedade”.

Não abrimos mão de problematizar a força de qualquer empreitada-arte, e isto parece interessante porque por meio dessa suspeição irônica nos tornamos mais aptos para compreender a arte e a poesia numa dimensão menos grandiloqüente ou menos esperançosa em relação ao seu poder de fogo. Talvez, mesmo a revelia de seus pais fundadores, a editora Éblis venha a ter alguma importância frente à multiplicação libidinosa dessas visibilidades sem fundo ou das novas tecnologias e sua correlata insolvência. Mas isso foge ao nosso controle, pois o futuro pertence à Éblis. Nosso projeto gráfico já afirma uma espécie de vontade não-perdulária no que toca ao aproveitamento dos signos. Nossas capas revelam um gesto severo de calígrafo: uma estocada de nanquim sobre a folha branca. A recusa sob a escolha.

Editorial 2006

Ronald Augusto e Ronaldo Machado - Novembro de 2006

Bar Naval, 20 de novembro de 2006

Sob o signo de Éblis, vem à luz uma proposta editorial simples: a edição de livros de poesia, primeiramente os nossos. Sobre o futuro, e desde o ponto de vista da editora, digamos que pertence a Éblis. Invertemos a força disjuntiva de Éblis e a dispomos na direção contrária, forçando-o a jungir nossos projetos poéticos.

Já no prelo estão os dois primeiros livros da editora: de Ronald, No assoalho duro; de Ronaldo, Solecidades. Ambos sairão com uma edição de trezentos exemplares.

Específicos em suas singularidades, os dois livros se completam (e também se contrastam) no trabalho editorial a que nos propusemos, o qual pressupõe a poesia e o livro como objetos estéticos nascidos da posse da alteridade de nós mesmos, pela consciência e pela análise, pelo exercício e pela experimentação, mas sem desprezar a colaboração do acaso. Poesia-coisa e livro-objeto como resultado de um senso ludodáctilo, de uma inteligência lúcida, vertiginosa, às voltas com seus limites, recusando-se, sempre, à dissipação e ao descanso fácil.

Nos interessamos tanto pelo trabalho poético e como pelo seu resultado concreto: o livro de poesia. A poética do suporte.

Empresamos uma editora cujo foco é por em circulação a poesia que não se contente com a corriqueira satisfação da moeda literária vigente, que cai sempre, inevitavelmente, ora com a cara cult, ora com a coroa provinciana. Não somos Quixotes, mas investimos na Editora Éblis nossos próprios recursos estéticos e nossos próprios bens éticos.

Não obstante, a Editora Éblis se situa, isto é, para o bem ou para o mal, representa um gesto político contra o pano de fundo de um sistema literário, entendido aqui como a representação especular, mas com suas particularidades, dos imperativos sócio-econômicos abrigados sob o arco ideológico do livre mercado que exige competência a quem quer se estabelecer.

Mas, como adequar o fracasso e o impreciso constitutivos da prática poética, que é, antes, improdutiva, impertinente e não-utilitária, a essa "eficiência de rebanho" requerida pelo modo capitalista de produção? A condição mesma do poema como ser de linguagem, inadequado à comunicação do que quer que seja, exceto a de sua própria realidade estética, já o consagra como coisa invendável ou inviável, economicamente falando.

Caberia, então, perguntar sobre a função de uma editora quase imaterial, cujos livros terão tiragens de não mais de trezentos exemplares, e os volumes magros com cerca de vintes e poucos poemas? Ou ainda, e quanto às questões relativas à difusão da leitura ou sobre a literatura como coisa para poucos, etc.? Caberia, mas quem se habilita a responder sem repetir clichês decadentistas ou multiculturais?

RONALD AUGUSTO & RONALDO MACHADO, editores